
Mobilidade inteligente representa futuro que já começa a circular em Fortaleza
6 de novembro de 2025
Cidade verde: o poder das árvores no equilíbrio urbano
6 de novembro de 2025Segundo a Agefis, as principais fontes de poluição sonora na capital vêm de bares, festas particulares e som automotivo. “A cada operação, recebemos dezenas de denúncias relacionadas a eventos que extrapolam o limite legal de decibéis. Nosso trabalho é equilibrar o direito ao lazer com o respeito à vizinhança”, afirmou a superintendente da agência, Laura Jucá, em entrevista ao Diário do Nordeste em 2024.
Há sons que fazem parte da vida urbana – o burburinho das feiras, o canto dos vendedores, o motor dos ônibus. Mas há um limite tênue entre o som que movimenta e o ruído que adoece. Em Fortaleza, como em tantas grandes cidades, a poluição sonora se tornou um dos principais desafios para a qualidade de vida, afetando o sono, o humor e até a saúde cardiovascular dos moradores.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o ruído excessivo como um dos maiores problemas ambientais das áreas urbanas. De acordo com suas diretrizes, níveis acima de 55 decibéis durante o dia e 45 decibéis à noite já podem causar desconforto, irritabilidade e distúrbios do sono. Em locais de tráfego intenso ou próximos a obras e bares, esse índice é facilmente ultrapassado.
Em Fortaleza, a Lei nº 10.644/2017, que institui o Código de Proteção ao Meio Ambiente, e o próprio Código da Cidade (Lei Complementar nº 270/2019) definem regras claras sobre emissão de ruídos. A fiscalização é feita pela Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), que atua em parceria com a Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) e com a Polícia Militar. Denúncias podem ser feitas gratuitamente pelo 156 ou pelo aplicativo Fiscalize Fortaleza.
A cidade, contudo, não está sozinha nesse desafio. Um levantamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostrou que a poluição sonora é a segunda maior causa de reclamações ambientais no país, perdendo apenas para o descarte irregular de lixo. O problema cresce na mesma proporção que o adensamento urbano, o aumento da frota e a proliferação de espaços de entretenimento sem isolamento acústico adequado.
Para a engenheira ambiental Luciana Vieira, especialista em acústica urbana e pesquisadora da Universidade de Fortaleza (Unifor), o ruído é o “poluente invisível” do século XXI. “Ele não suja o ar, mas altera o corpo. A exposição constante a sons altos eleva o estresse, interfere na concentração e afeta o sistema imunológico. É um problema silencioso apenas no sentido figurado”, afirmou em artigo publicado pela universidade em 2023.
Exemplos lá fora
Cidades como Curitiba e Belo Horizonte têm apostado em tecnologias de monitoramento acústico por sensores, capazes de mapear em tempo real as áreas mais afetadas. O modelo, conhecido como “mapa de ruído urbano”, orienta políticas públicas, revisões de zoneamento e ações de saúde preventiva. Fortaleza já estuda iniciativas semelhantes dentro da Seuma, em parceria com universidades locais.
Moradores percebem o impacto no cotidiano. “Tem dias que o barulho dos carros de som começa cedo e não termina. A gente se sente cercado por ruídos o tempo todo”, relata Marcos Almeida, morador da Aldeota. “Quando a rua está mais silenciosa, é outro clima. A gente relaxa, dorme melhor, até o humor melhora”.
Segundo a OMS, a poluição sonora está associada a um aumento de até 20% nos casos de hipertensão arterial e insônia em áreas urbanas densamente povoadas. A recomendação é que os governos locais incorporem o controle do ruído às políticas de mobilidade, planejamento urbano e saúde pública — tratando o tema como parte essencial da qualidade ambiental das cidades.
Fortaleza vem dando passos nessa direção. O município mantém um Programa de Educação Ambiental e Urbanismo Sustentável, que inclui campanhas de conscientização sobre o uso responsável do som. A Seuma também incentiva o isolamento acústico em novos empreendimentos e a criação de áreas de amortecimento em zonas mistas. A ideia é simples: quanto mais ordenada a cidade, menor o impacto dos sons sobre quem nela vive.
Mais do que reduzir o barulho, combater a poluição sonora é devolver o silêncio – um bem coletivo que traduz equilíbrio e respeito. Cidades saudáveis não são apenas aquelas que se movem bem, mas também as que sabem ouvir – e, quando necessário, sabem calar.
E.





