
Viajar com propósito: o avanço do turismo sustentável no Brasil
18 de novembro de 2025
A nova era das viagens solo: autonomia, segurança e os novos caminhos de quem escolhe viajar consigo
18 de novembro de 2025O turismo gastronômico se consolidou como um dos segmentos mais dinâmicos da indústria do turismo. Segundo o Global Report on Food Tourism, da Organização Mundial do Turismo (UNWTO), experiências culinárias são cada vez mais determinantes na escolha dos viajantes, que veem na comida uma forma de acessar cultura, memória e identidade. A busca deixou de ser apenas por restaurantes renomados e passou a incluir vivências completas: aprender técnicas, visitar pequenos produtores, conhecer histórias locais e participar do processo.
No Brasil, análises do Ministério do Turismo apontam que a gastronomia é um dos grandes atrativos na decisão de viagens internas, especialmente em destinos reconhecidos pela autenticidade de sabores e tradições. No Ceará, essa tendência se manifesta tanto na capital quanto no interior, onde ingredientes simples ganham protagonismo quando carregam histórias – do peixe fresco da pesca artesanal ao coco que atravessa receitas doces e salgadas. Cada prato se torna uma porta de entrada para compreender a relação entre território e cultura.
Sabores locais
Fortaleza, pela força da pesca artesanal, oferece vivências que conectam o visitante ao território. Em comunidades costeiras, é comum turistas acompanharem o desembarque do peixe ao amanhecer, conversarem com pescadores e entenderem a dinâmica que sustenta famílias inteiras há gerações. Para Paulo Schwartz, turista de 46 anos, vindo do Paraná, a experiência foi reveladora. “Você entende que comer é só a última parte da história. O mais bonito é ver o cuidado e o conhecimento de quem trabalha no mar”, comenta.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) destaca em seus estudos que práticas alimentares tradicionais são patrimônio cultural e ajudam a preservar modos de vida. A produção artesanal de farinha, rapadura, queijo, mel de engenho e doces regionais ilustra essa ligação profunda entre comida, memória e território. Em municípios do interior cearense, engenhos e agroindústrias familiares vêm recebendo visitantes interessados em conhecer processos que unem tradição e identidade, reforçando o papel econômico dessas atividades.
Pesquisadores brasileiros da área de antropologia da alimentação, como os vinculados à Universidade Federal do Ceará (UFC), têm apontado em publicações acadêmicas que a cozinha regional funciona como linguagem e elemento de pertencimento. A ideia de que “comer é interpretar um território” sintetiza essa compreensão, ressaltando a relevância cultural da gastronomia nordestina.
Cozinha evolutiva
Enquanto as tradições resistem no sertão, o litoral cearense observa um movimento crescente de gastronomia contemporânea. Chefs locais têm explorado ingredientes regionais com técnicas modernas, criando pratos autorais que valorizam sabores do Nordeste com abordagens inovadoras. Restaurantes de Fortaleza e do litoral leste e oeste figuram em listas e seleções especializadas, chamando atenção de viajantes motivados por experiências sofisticadas, mas enraizadas na cultura local.
Essa combinação de identidade e inovação fortalece a posição do Ceará como destino gastronômico emergente, contribuindo para atrair um público cada vez mais interessado em vivências autênticas.
Mercados pulsantes
Mercados populares também se tornaram parte essencial dos roteiros gastronômicos. O Mercado São Sebastião, o Mercado dos Peixes e as feiras regionais oferecem uma imersão sensorial única: cores, cheiros, texturas e histórias se misturam em corredores que revelam ingredientes típicos e práticas culinárias transmitidas de geração em geração. Ali, turistas encontram desde frutas nativas até farinhas raras, passando por ervas, especiarias e preparos que representam o encontro entre tradição e modernidade.
Laura Bezerra, pesquisadora de turismo, resume a experiência: “nesses mercados, você não compra só ingredientes — você compra histórias, conversa com quem produz e descobre sabores que contam muito sobre o Ceará”.
Roteiros afetivos
O que move o turista gastronômico não é apenas o prato, mas sua narrativa. São encontros com doceiras que manteram receitas centenárias, com artesãos da mandioca que explicam cada etapa da farinha, com pescadores que compartilham histórias de mar e fé. Em muitos casos, a maior lembrança que o viajante leva não é a fotografia, mas o vínculo criado com quem mantém vivas tradições tão valiosas.
Ao mesmo tempo, especialistas em sustentabilidade apontam para os desafios desse crescimento: é necessário preservar a autenticidade cultural, garantir condições justas a comunidades tradicionais e manter o equilíbrio entre fluxo turístico e fragilidades ambientais. A UNWTO reforça que o turismo gastronômico só se sustenta quando respeita os limites do território.
O Ceará, diverso em ingredientes e histórias, se consolida como destino que oferece não apenas refeições, mas experiências. Comer se torna um gesto de pertencimento. E quando o sabor guia a rota, cada viagem se transforma em descoberta – e cada prato, em memória.
E.





