
Sons invisíveis que afetam a saúde nas cidades; ruídos potencializam insônia e hipertensão
6 de novembro de 2025
Todos podem errar, menos eles: a dura realidade dos árbitros no futebol brasileiro
6 de novembro de 2025Moradores também percebem essa diferença. “Na minha rua, antes era um calor insuportável. Agora, depois do plantio, o vento corre e a gente até senta na calçada de tarde”, comenta Lúcia Vasconcelos, moradora do bairro José Bonifácio. Histórias como essa revelam que o impacto da arborização vai além da estética: cria vínculos, melhora o microclima e incentiva a convivência entre vizinhos.
Há algo de silencioso e poderoso nas árvores. Elas filtram o ar, reduzem o calor, absorvem ruídos e convidam à convivência. Nas cidades, representam mais do que beleza – são infraestrutura viva, essencial para a saúde, o conforto e o bem-estar coletivo. Em Fortaleza, onde o sol brilha quase o ano todo, a sombra de uma árvore pode ser um refúgio e também um ato de cuidado com o espaço público.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Fortaleza é a capital nordestina com maior proporção de vias arborizadas: 75,2%, acima da média nacional, que é de 66%. O dado mostra que, apesar dos desafios do adensamento e da verticalização, a cidade ainda mantém uma relação de afeto com o verde – embora essa relação precise ser fortalecida e distribuída de forma mais equilibrada entre os bairros.
O Plano de Arborização Urbana de Fortaleza, coordenado pela Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), orienta o plantio e a preservação das espécies em vias, praças e parques, priorizando árvores nativas adaptadas ao clima local, como o ipê, o oitizeiro e o pau-brasil. Segundo a pasta, a meta é ampliar o número de espécies e intensificar o plantio em áreas com menor cobertura vegetal, conectando corredores verdes e promovendo conforto térmico nos espaços públicos.
Ecológica, estética e social
Para a ex-secretária do Urbanismo e Meio Ambiente, Águeda Muniz, “a arborização é uma infraestrutura verde que precisa ser planejada com o mesmo cuidado que qualquer obra urbana. Cada árvore tem uma função ecológica, estética e social”. A fala, publicada em entrevista à Revista Cidade (2023), reflete uma visão cada vez mais presente no planejamento urbano moderno: a de que o verde não é complemento, mas parte da estrutura funcional da cidade.
O benefício é mensurável. Pesquisas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) indicam que bairros com maior cobertura vegetal podem registrar temperaturas até 5°C mais baixas do que áreas totalmente pavimentadas. Além disso, árvores bem posicionadas reduzem o consumo de energia, ao criar sombreamento natural em residências e prédios. Para o engenheiro florestal Marcelo Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará (UFC), “plantar uma árvore é uma das ações mais simples e poderosas que uma cidade pode adotar contra o aquecimento urbano. É uma estratégia de adaptação climática de baixo custo e alto impacto”.
Cidades como Sobral e Fortaleza têm experimentado modelos de plantio participativo, com mutirões e projetos escolares. A ideia é unir técnica e pertencimento, estimulando a população a adotar árvores e acompanhar seu crescimento. “As pessoas cuidam melhor daquilo que sentem como parte delas”, disse Cavalcante, em palestra recente sobre sustentabilidade urbana. Essa conexão emocional é o que transforma o verde em elemento de identidade local.
Microclima: o que é?
No entanto, o desafio ainda é distribuir esse verde de forma justa. Estudos da Universidade Federal do Ceará (UFC) mostram que bairros mais periféricos tendem a ter menos árvores por metro quadrado, o que amplia o desconforto térmico e as desigualdades ambientais. O conceito de justiça climática urbana propõe corrigir essas disparidades, levando infraestrutura verde para onde o sol e o concreto são mais duros.
Fortaleza também tem investido em tecnologias de georreferenciamento e monitoramento das áreas arborizadas, para acompanhar a saúde das árvores e planejar podas preventivas. O uso de drones e imagens de satélite auxilia na identificação de áreas críticas e na definição de rotas de plantio, tornando a gestão ambiental mais eficiente e científica.
Em última instância, o verde urbano é um símbolo de equilíbrio entre desenvolvimento e natureza. Não há cidade inteligente sem natureza inteligente. Quando uma árvore cresce na calçada, ela não apenas refresca o ambiente – ela humaniza o concreto, devolve poesia ao cotidiano e lembra que o progresso pode, sim, florescer à sombra.
E.





