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19 de novembro de 2025O debate sobre a grama sintética nunca foi tão acalorado no futebol brasileiro. Enquanto torcedores, atletas e dirigentes se dividem entre defensores e críticos, entidades internacionais lembram que, quando certificada e instalada de forma adequada, a superfície artificial não apresenta maior risco de lesão em comparação à grama natural. Mesmo assim, a percepção contrária ainda persiste no imaginário do esporte nacional.
A FIFA, órgão máximo do futebol mundial, determina que gramados sintéticos utilizados em competições oficiais precisam passar por testes anuais de qualidade, que avaliam amortecimento, quique da bola, tração, resistência e outros fatores biomecânicos. Apenas campos aprovados recebem o selo FIFA Quality ou FIFA Quality Pro, este último indicado para partidas profissionais de alto nível. Sem o cumprimento desses critérios rigorosos, o gramado simplesmente não pode ser usado.
Narrativas opostas
Na visão de preparadores físicos e fisiologistas – em entrevistas e estudos amplamente divulgados – o ponto central não é a superfície sintética em si, mas a diferença de hábito dos atletas brasileiros, historicamente formados e treinados em campos naturais. A preferência pessoal por grama natural é evidente em pesquisas e declarações de jogadores profissionais. Porém, isso não pode ser confundido com risco comprovado. Até hoje, não há consenso científico que associe o gramado sintético, dentro dos padrões da FIFA, a um aumento significativo de lesões musculares ou ligamentares.
Existe, porém, uma guerra de narrativas. Grande parte dos atletas afirma sentir maior impacto, mais calor e mais tração nos campos artificiais. Mas fisioterapeutas e especialistas lembram que muito dessa percepção nasce da comparação com gramados naturais em más condições, cenário comum no país. “A discussão muitas vezes desconsidera a realidade dos estádios brasileiros: muitos possuem piso irregular, buracos, gramado ralo e deformações perigosas”, explica Filipe Saraiva, fisioterapeuta esportivo com atuação na área esportiva. “Esse tipo de superfície, sim, oferece risco real para tornozelos, joelhos e musculatura”.
Realidade brasileira
O Brasil convive regularmente com um calendário exaustivo, chuvas tropicais, estádios multiuso e manutenção limitada. A combinação desses fatores cria campos naturais instáveis – alguns deles bem abaixo do padrão mínimo tido como seguro. Em comparação a isso, a grama sintética, quando certificada e nivelada, tende a oferecer regularidade, uniformidade e previsibilidade, atributos fundamentais para prevenção de lesões por torção ou alterações bruscas no movimento.
Nem todos os torcedores percebem essa diferença. “Muita gente critica sem nunca ter pisado num campo sintético profissional”, comenta Rogério Martins, ex-jogador profissional. “Eu já torci o pé em buraco de campo natural, já tive lesão de ligamentos, mas nunca me machuquei em gramado sintético. A sensação é diferente, mas não é perigosa, o corpo habitua”. Esse tipo de relato é comum entre pessoas que convivem com ambas as superfícies. “É muito melhor um ótimo gramado artificial, onde a bola rola macia e sem buracos, do que um campo natural de péssima qualidade, como a gente tanto vê no futebol daqui”, complementa.
Visão global
No cenário internacional, diversas ligas – incluindo países europeus, asiáticos e norte-americanos – usam gramados sintéticos certificados sem observar aumento significativo de lesões graves. Além disso, os campos artificiais permitem mais horas de uso, menor dependência climática e manutenção mais previsível. Esse é um dos motivos pelos quais escolinhas, centros de treinamento e estádios multiuso adotam com frequência o sintético.
Fortaleza acompanha esse movimento. Apesar de a Arena Castelão manter gramado natural, clubes, escolinhas e centros esportivos da capital já utilizam versões certificadas de grama artificial. Preparadores físicos da região enfatizam que, para atletas em formação, a adaptação a diferentes superfícies melhora a propriocepção, reduz desequilíbrios musculares e torna o jogador mais completo.
Especialistas afirmam que, no fim das contas, o debate não é sobre escolher entre natural ou sintético, mas sobre qualidade, manutenção e contexto. Quando o campo natural é impecável, torna-se, sim, a preferência de boa parte dos atletas. Mas quando apresenta irregularidades – realidade comum no futebol brasileiro – torna-se mais nocivo do que qualquer piso sintético aprovado pela FIFA.
Hoje, o gramado artificial já deixou de ser uma “novidade”. É tecnologia consolidada, amplamente testada e usada em ambientes competitivos ao redor do mundo. No Brasil, ainda enfrenta resistência cultural. Mas a ciência, até agora, não o condena – e os números mostram que o verdadeiro inimigo da saúde dos atletas talvez não seja o sintético, e sim o descuidado natural.
E.





