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18 de novembro de 2025Em campo, qualquer jogador pode perder um gol feito. Um técnico pode errar na escalação. Dirigentes podem falhar em suas gestões. Mas o árbitro, não. O erro de quem apita é visto como intolerável, quase um pecado imperdoável.
“Em um lance, as pessoas nos crucificam. Mas quantos passes o jogador erra? Ele erra porque quer? Jamais. Igual o árbitro. O árbitro é o mais cobrado”, desabafa a árbitra Edina Alves Batista, uma das principais vozes da arbitragem brasileira. “Nós amamos o que fazemos. Quando estamos em campo, damos o nosso melhor. Mas fora dele, não recebemos nada. Não há salário fixo. Ficamos em casa sem jogo e, consequentemente, sem renda”.
A fala de Edina traduz o mote que ecoa nos bastidores do futebol: todos podem errar – menos eles.
Vida sem salário: só cachê
Ao contrário do que muitos torcedores acreditam, os árbitros no Brasil não são profissionais contratados em regime de CLT. Eles recebem apenas por jogo apitado, de acordo com tabelas estabelecidas pela CBF e federações.
Em 2025, a taxa de um árbitro central na Série A do Brasileirão é de R$ 7,2 mil por partida. Pode parecer muito, mas na prática não garante estabilidade. Primeiro porque não há escala fixa — se o árbitro ficar fora de rodadas, não ganha nada. Segundo porque parte do valor é consumida por impostos e gastos pessoais.
“Você volta para casa com cinco cruzeiros”, ironizou o árbitro carioca Marcelo de Lima Henrique, que hoje apita pela Federação Cearense, em entrevista à CNN Brasil.
“Não há salário. O árbitro errou,
fica punido. Fica meses sem
ganhar nada. É justo isso?”
Marcelo de Lima Henrique

Um levantamento do UOL mostrou que o capixaba Davi Lacerda, por exemplo, conciliou partidas da Série A com o emprego como gerente de uma serralheria. “Não conto com o dinheiro da arbitragem”, afirmou. Para se manter apto, paga do próprio bolso nutricionista, fisioterapeuta e preparador físico.
A montanha-russa da “geladeira”
A instabilidade é ainda maior quando o árbitro é afastado das escalas. O caso de Ramon Abatti Abel, árbitro do quadro da FIFA, é emblemático. Em apenas dois meses, ele acumulou cerca de R$ 56 mil em taxas por oito partidas, entre Brasileirão e Copa do Brasil. Mas após uma atuação polêmica no Choque-Rei entre São Paulo x Palmeiras, foi para a chamada “geladeira” – e deixou de ter qualquer perspectiva de renda imediata.
Essa “montanha-russa financeira” não é exceção: basta um erro para transformar um período de bonança em meses de incerteza. Abatti Abel regressou como árbitro de vídeo recentemente.
Estrutura paga do próprio bolso
Ao mesmo tempo em que são cobrados pela forma física e mental, os árbitros precisam bancar sua própria preparação. Academias, personal trainers, fisioterapeutas, nutricionistas, viagens, hospedagens, exames e até equipamentos esportivos entram na lista de despesas.
Segundo Wilson Seneme, ex-presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, essa precariedade mina o desempenho: “Entrar em campo preocupado com a conta que tem para pagar é uma preocupação a mais para quem já sofre muita pressão. O árbitro é pessoa comum, não é super-homem ou robô”.
Enquanto na Conmebol um árbitro pode receber US$ 3,3 mil por jogo (cerca de R$ 17,4 mil), no Brasil até nomes consagrados, como Raphael Claus, chegam a R$ 8 mil por partida – valores pontuais, que não garantem sustento estável.
Pressão e desconfiança
Além da parte financeira, há a dimensão simbólica. Árbitros vivem sob julgamento constante. A cada erro, paira sobre eles a suspeita de má-fé. Redes sociais amplificam críticas, torcidas organizadas pressionam, dirigentes inflamam discursos de parcialidade.
No caso das mulheres, o peso é ainda maior. Árbitras e assistentes enfrentam machismo explícito e questionamentos sobre sua autoridade. A trajetória de Sílvia Regina de Oliveira, pioneira que apitou jogos da Série A masculina e hoje é instrutora de VAR, mostra que conquistar respeito exige resiliência dobrada.
Um sistema que pede mudança
A falta de profissionalização plena é apontada por especialistas como a raiz do problema. Hoje, o árbitro não tem direitos trabalhistas, fundo de amparo ou salário-base. Se erra, é afastado e perde toda a renda.
“O sistema é falido”, cravou Wilson Seneme em entrevista ao GE. “Os árbitros são mal remunerados e carentes de estrutura”.

Entre as propostas debatidas no meio estão a criação de contratos profissionais, centros regionais de treinamento, programas de suporte psicológico e físico, além de fundos para amparar quem fica temporariamente fora das escalas.
Conclusão: empatia necessária
O apito é solitário. Entre críticas, salários incertos e pressão por perfeição, o árbitro brasileiro sobrevive mais do que vive da arbitragem. Enquanto isso, a máxima cruel segue ecoando: todos podem errar — menos eles.
Se quisermos futebol mais justo e humano, é preciso lembrar que atrás do uniforme preto existem homens e mulheres que, como qualquer trabalhador, também falham, também sofrem — e também precisam de dignidade.
E.





